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E aí, mano velho?

Bruno Pereira trabalhando com a Equipe de Vigilância da Univaja. Foto: Acervo Opi
Bruno Pereira trabalhando com a Equipe de Vigilância da Univaja. Foto: Acervo Opi

Publicado por Opi

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Carta ao nosso amigo Bruno Pereira

E aí, mano velho?

Quatro anos já, né? Você faz uma falta danada. Mas a gente tá reaprendendo a viver aqui com você só no coração. Quem diria que dois meses depois daquele abril de 2022 em Alter do Chão, quando fundamos o Opi, seu corpo não estaria mais com a gente. A gente tomou banho de rio, comeu peixe, tomou açaí, brincamos na praia. A gente sonhou bem foi muito naquele tempo.

Mas é como a gente falou logo depois de cruelmente te levarem: teu espírito estaria espalhado em nós e na floresta. E todo dia ele nos guia. Temos cuidado das sementes que você deixou plantadas, sabe? Sua família está e estará sempre com a gente; Bia continua uma fortaleza e seus filhos estão lindos e bem, Pedrinho saudável, Luiz forte e Maria virando uma moça linda. 

O Dom também não foi esquecido, os amigos terminaram o livro que ele tava fazendo quando foi com você no Javari e é um sucesso, tem um instituto com o nome dele, tocado pela Alê, que tá levando o legado dele adiante também. 

A gente vê os frutos do teu trabalho por todos os lados, mano. O Brasil agora tem um Ministério dos Povos Indígenas, com departamento específico para povos isolados e de recente contato, acredita? A ADPF 709, que você ajudou a construir, garantiu desintrusões de várias terras indígenas. A Funai, que você tanto defendeu, tá mais fortalecida e melhorou a estrutura para proteção dos isolados. Tem problema ainda, claro, mas no geral tá sendo bonito de ver. Operação naqueles garimpos todos que você odiava no Javari, muito trabalho com os Yanomami e a demarcação da Kawahiva do Rio Pardo tá saindo! 

E tem mais coisa legal pra gente te contar. Apesar da tristeza de o “índio do buraco” ter sido encontrado morto – três meses depois de você, aliás – a APIB convidou a gente pra escrever a ADPF 991 e, além de um monte de coisa massa (como um concurso de servidores para trabalharem nas Frentes), essa parceria resultou na proteção da terra Tanaru e na criação de um Parna lá. Tá vendo como seu espírito tá mesmo espalhado na gente? O Opi cresceu, cara, tem uma galera trabalhando aqui agora, até intercâmbio com a Indonésia sobre os povos isolados a gente tá fazendo.

Você não conseguiu votar em 2022, mas deixa a gente te contar que a Sonia Guajajara, a Célia Xakriabá e a Juliana Cardoso foram eleitas como deputadas federais. Foi a legislatura com a maior quantidade de indígenas da história. E Soninha virou ministra. Lula foi eleito, subiu a rampa com diversos representantes de minorias. Raoni estava lá. Depois da posse claro que não foi tudo festa. O governo mesmo, se formos olhar pras promessas de campanha e para o que foi executado, dá pra passar uma raiva boa… um tanto de empreendimento na pauta do dia, conversa de mineração em terra indígena, asfaltamento de rodovia na região mais preservada da Amazônia, a gente sabe bem a gravidade desses projetos para os povos indígenas e comunidades tradicionais. E tamos aqui na briga, como você teria feito também.

Mas é isso, estamos aqui de novo em ano eleitoral. Como dizia a Rita Lee, “pra variar estamos em guerra, você não imagina a loucura”. Os gringos estão ensaiando umas besteiras à la anos 60 aqui na América Latina e, claro, a gente no bolo. Mas nossa democracia já não é aquela e a luta segue forte. Resistência nos três poderes e na sociedade civil. Seguimos com saudade de dialogar com uma direita democrática, que perdeu espaço para o neofascismo que segue ameaçando o país com a mesma e velha política anti-indígena e antiambiental que provocou a sua morte. Mas não só de neofascismo que vivem os que nos ameaçam. O agro tá cada vez mais sedento pelas florestas e por técnicas mais baratas de produção, enfiando agrotóxicos goela à baixo do povo, aprovando o fim do licenciamento, o fim do monitoramento florestal por satélite, o super MAPA… Osso.

Tem uma galera meio “pocas ideia” que diz que você morreu porque foi ingênuo e negligente com sua segurança, mas é bizarro pensarem isso quando você fez a mesma coisa, no mesmo lugar, por doze anos e foi assassinado, justamente, quando tinha um imbecil no poder bradando contra tudo que a gente defendia, dando espaço pro narcotráfico ampliar suas redes na Amazônia e deixar o ativismo ambiental ainda mais arriscado. É por essas e outras que a gente precisa logo do julgamento do seu caso, da condenação dos seus assassinos e mandantes. Tá uma demora insuportável e sabemos que durante os dias do julgamento vai ficar ainda mais difícil. Vão tentar acabar com sua imagem e memória. Mas estamos aqui pra mostrar quem você foi, mano velho. Pra mostrar quem você ainda é por meio de nós.

Fica em paz porque você segue aqui!

*Como estávamos contando da vida para nosso amigo, não explicamos as siglas no texto. Aqui vão elas:

ADPF 709 – Arguição por Descumprimento de Preceito Fundamental que tramitou no Supremo Tribunal Federal com relatoria do ministro Luís Roberto Barroso

APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil

ADPF 991 – Arguição por Descumprimento de Preceito Fundamental que tramita no Supremo Tribunal Federal com relatoria do ministro Edson Fachin

Parna – Parque Nacional, unidade de conservação de proteção integral

MAPA – Ministério do Abastecimento, Pecuária e Agricultura

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