Notícias

Opi alerta para riscos aos indígenas isolados com a suspensão da desintrusão da TI Uru-Eu-Wau-Wau

Placa de demarcação da TI Uru Eu Wau Wau com perfurações por tiros. Acervo Kanindé 2019
Placa de demarcação da TI Uru Eu Wau Wau com perfurações por tiros. Acervo Kanindé 2019

Publicado por Opi

Compartilhar

Interrupção determinada pelo ministro Gilmar Mendes, do STF, ameaça ao menos seis grupos em isolamento que vivem dentro do território. Para o Opi, retirada de invasores é crucial para proteção

A recente suspensão da desintrusão da Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, ordenada pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF) tem impacto direto sobre a sobrevivência de povos indígenas isolados que vivem nesse território e que dependem exclusivamente da integridade da floresta para continuar existindo. Para o Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (Opi), a presença de invasores dentro da Terra Indígena não é uma problemática apenas judicial ou administrativa: trata-se de um fator concreto de risco para grupos extremamente vulneráveis, que não possuem proteção imunológica contra doenças externas e que historicamente foram alvo de ataques violentos associados à expansão fundiária, garimpo e exploração ilegal de madeira.

Atualmente, há seis registros de povos indígenas em isolamento na TI, três deles já confirmados pelo Estado brasileiro. Os registros 48 e 49 referem-se a um grupo falante de uma língua ainda não identificada, denominado pelos povos vizinhos Amondawa e Jupaú como Wyrapararekwara. Informações reunidas ao longo dos anos, sobretudo pelo indigenista Rieli Franciscato, indicam que esse conjunto não corresponde a um único grupo homogêneo, mas possivelmente a pelo menos três subgrupos distintos, com diferenciações internas.

O registro confirmado de número 50 refere-se a um grupo reduzido falante da língua Kawahiva, sobrevivente de sucessivos ataques nas décadas de 1980 e 1990. Há indícios de que esse grupo possua conexão histórica com os Kawahiva que habitavam a extinta Terra Indígena Rio Muqui, área que foi desassistida e posteriormente desprotegida no final dos anos 1990, processo genocida que contribuiu para deslocamentos forçados, declínio populacional e agravamento da vulnerabilidade desse povo. Para esse grupo, a presença de invasores é ainda mais preocupante pela proximidade de uma das ocupações ilegais e a região onde vivem.

Além desses três registros confirmados, existem ao menos outros três registros ainda não confirmados, em razão das dificuldades operacionais de monitoramento em áreas remotas e sob forte pressão das ações ilegais. É possível, inclusive, que outros grupos estejam presentes em regiões mais profundas do território, sem que haja informações consolidadas.

A TI Uru-Eu-Wau-Wau sofre há décadas com invasões relacionadas à grilagem de terras, ao garimpo e à retirada ilegal de madeira. Essas atividades provocam desmatamento, abertura de ramais clandestinos, contaminação de cursos d’água e aumento da circulação de não indígenas dentro do território. Foi nesse contexto de proteção territorial e monitoramento de povos isolados que o grande professor do indigenismo e protetor do território Rieli Franciscato morreu em serviço, evidenciando o grau de tensão e risco permanente associado à defesa da área.

A paralisação da desintrusão mantém ativos vetores históricos de violência e contaminação. Para povos isolados, qualquer avanço externo pode representar epidemias, conflitos armados e ruptura definitiva de suas condições de sobrevivência. A garantia da integridade territorial é, portanto, a principal e mais eficaz política de proteção desses grupos. Sem território protegido e livre de invasores, não há possibilidade concreta de assegurar o direito ao isolamento e à existência física e cultural desses povos.

Em comunicado à sociedade, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), reivindicaram a continuidade do processo de retirada de invasores. As lideranças indígenas  alertam que a suspensão interrompeu um processo que estava em curso com a participação do governo federal e previa o reassentamento dos ocupantes de boa fé. Para Bitaté, liderança do povo Uru-Eu-Wau-Wau, a decisão foi um “grande baque” e acabou favorecendo políticos de Rondônia que promoveram uma campanha de fake news contra a desintrusão e defendem a redução do território. “Lutamos pelo nosso território desde o tempo do contato para mantê-lo livre de invasões”, afirma a liderança, ressaltando que a terra abriga as culturas, os cemitérios e as vidas de seu povo, além de nascentes vitais para todos os moradores – indígenas e não-indígenas – do estado. 

“Havia um diálogo em curso, com levantamentos para indenização e reassentamento de ocupantes de boa-fé, e a decisão interrompe o processo que garantiria o pleno usufruto do povo Uru-Eu-Wau-Wau e a proteção de povos isolados”, disse Kleber Karipuna, coordenador da Apib. 

Para as lideranças indígenas, a luta pela continuidade da fiscalização na TI Uru-Eu-Wau-Wau é uma defesa dos direitos fundamentais e do acesso à justiça para os povos que guardam a floresta. Elas exigem que o Estado brasileiro cumpra seu dever constitucional de proteger o território contra a exploração ilegal e assegure a paz para as futuras gerações.  

Leia também:

Cadastre-se para receber nossa newsletter.