O barco projetado por Bruno Pereira para atender a saúde indígena chega ao Javari

Em evento organizado pela Univaja, o barco foi entregue no dia 27 com a presença das víuvas de Bruno e Dom, da ministra dos povos indígenas, Sonia Guajajara, da presidenta da Funai, Joenia Wapichana e do secretário de saúde indígena, Weibe Tapeba.

Beatriz Matos e Alessandra Sampaio em Atalaia do Norte, no Vale do Javari (AM). Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Nos últimos anos de vida, o indigenista Bruno Pereira se dedicou com afinco a projetar uma embarcação especial para realizar o atendimento de saúde indígena do povo Korubo no Vale do Javari. Ontem (27), a balsa Korubo II, projetada por ele, chegou finalmente na região. As viúvas de Bruno, Beatriz Matos, e do jornalista Dom Phillips, Alessandra Sampaio, estiveram presentes no encontro em Atalaia do Norte, no Amazonas, para acompanhar o momento.

“É mais uma concretização de um trabalho que é do Bruno e também de outras pessoas. Nós precisamos enfrentar essa situação do crime organizado que está tomando conta das terras indígenas não só no Vale do Javari, mas em todo o país. É preciso que seja uma ação interministerial, porque estamos combatendo o tráfico internacional”, disse Beatriz, recém-nomeada como Diretora de Proteção Territorial e Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato do Ministério dos Povos Indígenas, em entrevista à imprensa.

A Unidade Básica de Saúde Indígena Korubo II chegou no Vale do Javari junto com uma comitiva de autoridades do governo federal que incluiu a Ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, a presidenta da Funai, Joenia Wapichana, o presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, Rodrigo Agostinho e representantes dos ministérios da Justiça e Direitos Humanos. Também foram à Atalaia do Norte equipes do Ministério Público Federal, Defensoria Pública da União, Policia Federal, Secretaria Especial de Saúde Indígena, Força Nacional de Segurança e Polícia Rodoviária Federal. Também visitou o Javari a embaixadora da Inglaterra, Stephanie Al-Qaq.

“Vamos fortalecer as ações aqui nessa região para proteger a vida dos povos indígenas, das lideranças que seguem ameaçadas e também a proteção do território. O Vale do Javari é a região da Amazônia brasileira que tem a maior presença de povos isolados. Esses povos estão ameaçados pela mineração, pela exploração ilegal de madeira, pela pesca ilegal, pela caça ilegal e a gente precisa trazer o Estado para garantir a segurança”, disse Sonia Guajajara no Javari. Para Joenia Wapichana, o governo federal tem uma dívida com as famílias de Bruno, Dom e Maxciel Pereira. “A gente tem que buscar pela justiça, pela investigação, não somente por Bruno, Dom e Maxciel, mas também por outros servidores que estão aqui com a gente e pelas nossas lideranças que continuam sendo ameaçadas e já estão alertando isso faz um tempo”, disse.

O encontro, convocado pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) marcou uma retomada da região pelo governo brasileiro, com a promessa de repressão das organizações criminosas que lá atuam e que foram responsáveis pelos assassinatos de Bruno, Dom e Maxciel Pereira, também indigenista e morto em 2019, num crime até hoje sem solução. A esperança geral é de que os crimes sejam agora resolvidos e que os povos do Javari possam viver em segurança.

Korubo II

Balsa idealizada por Bruno Pereira foi construída em Santarém, no Pará. Foto: Divulgação/Opi

A UBSI Korubo II é parte importante do processo de retomada, simbolizando o respeito aos povos de recente contato da região. Um grupo dos Korubo foi contatado em uma megaexpedição coordenada por Bruno Pereira em 2019, necessária para conter uma escalada de violência envolvendo esse grupo e outros povos da região. Uma parte dos Korubo ainda vive em isolamento voluntário, enquanto outros já haviam sido contatados em 1996, 2014 e 2015. A expedição de 2019 foi a maior feita para localização de um grupo deles. A partir do contato, um dos principais desafios era assegurar a segurança sanitária dos indígenas que, por serem isolados, apresentam maior vulnerabilidade epidemiológica, ou seja, pouca resistência a doenças da sociedade nacional.

No próprio momento do contato, o esforço maior era para evitar contaminação dos indígenas, com o atendimento de saúde e a vacinação sendo as prioridades máximas, em ações coordenadas pelo médico Lucas Albertoni. Todo o cuidado deu resultado e não houve registro de contaminações entre o grupo de 37 pessoas que foi contatado pela Funai. Na época, Bruno era Coordenador Geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Fundação e a expedição foi planejada por ele diante do risco iminente de conflito entre os Korubo e os Matis, que habitam a mesma região. Mesmo com o sucesso do contato, o atendimento de saúde continuava sendo um desafio.

Os Korubo não poderiam ter um atendimento feito da mesma maneira que é o atendimento de saúde indígena em geral, precisavam de um método adaptado à lógica social do grupo, que tem o costume de fazer andanças pelo território e não ficar estabelecido o tempo todo em uma aldeia. Por isso Bruno Pereira passou a planejar uma Unidade Básica de Saúde Indígena (UBSI) fluvial que atendesse os indígenas sem fixar um posto de saúde em uma aldeia, que causaria uma sedentarização contrária ao modo de vida deles.

Existem outras UBSIs fluviais, mas o projeto feito para os Korubo foi desenhado tendo em mente as características dos rios da região, permitindo um atendimento itinerante – se as famílias mudam de localização no território, a balsa vai junto – e permanente, capaz de navegar os rios seja na cheia, seja na seca. Por isso, em vez de uma embarcação com maior calado, em que a parte submersa é mais profunda, optou-se por construir uma balsa, que tem o calado menor.

Outra questão é a facilidade para as próprias equipes de saúde, que passam a ter uma base confortável para fornecer o atendimento que os indígenas precisam. A balsa oferece um ambiente salubre, estéril, para resolver com mais eficiência problemas de saúde. A UBSI tem uma sala de atendimento que permite, por exemplo, realizar pequenas cirurgias, com eletricidade, piso de cerâmica e outros critérios que criam um ambiente limpo e inerte.

Bruno foi várias vezes até Santarém no Pará, cidade onde ficava o estaleiro que construiu a balsa, para assegurar que o desenho da embarcação, seu calado e sua estrutura fossem adaptados às condições climáticas e de navegação do da região, consultando especialistas e trabalhando incessantemente nos croquis. Bruno participou de todas as etapas do projeto e da construção, mas não pode ver a Korubo II ficar pronta. A chegada da balsa é mais uma parte do legado dele que se torna realidade, mas muito ainda precisa ser feito para honrar sua história, começando pela segurança efetiva dos povos indígenas do Vale do Javari.

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