PF aponta mandante dos assassinatos de Bruno e Dom e traz alívio, mas falta muito para derrotar os criminosos no Javari

Outras pessoas podem estar envolvidas nos homicídios, é preciso esclarecer a morte de Maxciel Pereira e o envolvimento, por omissão ou ação, de servidores públicos, inclusive militares

A Polícia Federal anunciou ontem em Manaus (AM) que concluiu 90% do inquérito que apura os assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips. Em coletiva à imprensa, o ex-superintendente da PF no Amazonas, Eduardo Fontes, que conduz as investigações, apresentou o resultado de laudos periciais e disse ter provas contundentes de que Ruben Dario da Silva Villar, o Colombia, é o mandante dos crimes. “Temos indícios veementes que apontam o Colombia como mandante desses crimes. Temos prova de que ele fornecia as munições utilizadas nos crimes. Ele aparece fazendo o pagamento inicial do advogado de defesa do Amarildo, dentre outros elementos de prova”, disse o delegado ontem, na conversa com a imprensa.

Considerado um dos chefes do crime organizado na região da tríplice fronteira (Brasil, Peru e Colômbia), o colombiano Ruben Vilar está preso e agora deve ser transferido para um presídio federal de segurança máxima, enquanto aguarda julgamento. Ele chegou a ser solto após pagar fiança, em outubro do ano passado, mas foi preso novamente em dezembro por descumprir as condições impostas pela Justiça Federal. Além de apontar Colombia como mandante, a PF apresentou Edvaldo da Costa Oliveira como participante direto dos homicídios. Ele é irmão de Amarildo da Costa Oliveira, o Pelado, já denunciado como executor dos crimes pelo Ministério Público Federal (MPF), ao lado de Jefferson da Silva Lima e Oseney da Costa. Os três estão presos e aguarda-se a realização das audiências de instrução do processo, que estavam marcadas para essa semana (de 23 a 25 de janeiro), mas foram adiadas.

A confirmação pela polícia do envolvimento direto de Colombia, que tinha sido apontado pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), traz alívio para as famílias de Bruno e Dom, já que no começo das investigações a PF tinha chegado a declarar à imprensa que não havia mandantes para os crimes. Mas não é possível descartar o envolvimento de outras pessoas, diante da situação de insegurança que permanece inalterada na região.

Lembramos que, em outubro do ano passado, quando Colombia e os outros acusados estava presos, uma liderança Kanamari recebeu ameaças de morte por pescadores ilegais quando navegava na mesma região em que Bruno e Dom foram assassinados. Lembramos que ainda não foi esclarecido o assassinato de Maxciel Pereira, que era colaborador da Fundação Nacional dos Povos Indígenas quando foi executado, em 2019, em Tabatinga.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos determinou inclusive medidas cautelares para proteger 11 pessoas ameaçadas na região e até agora não temos notícia de que essas medidas tenham sido cumpridas pelo Estado brasileiro. Após o ataque aos Kanamari, a Justiça Federal do Amazonas atendeu pedido da Defensoria Pública da União (DPU) e determinou a realização de operação conjunta com Funai, Ibama, Força Nacional e Forças Armadas, para coibir os criminosos que seguem ameaçando a vida de indígenas e servidores públicos na região

Não podemos esquecer também que é preciso apurar o envolvimento de servidores públicos, civis ou militares, que por ação ou omissão apoiaram a atuação das organizações criminosas que assolam o Vale do Javari. Bruno Pereira foi exonerado do cargo de Coordenador Geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai após coordenar ações de combate ao garimpo ilegal, tanto no Javari quanto na área Yanomami, em Roraima. No Javari servidores públicos e um jornalista foram assassinados e em Roraima um genocídio estava em curso por causa da atuação do crime organizado, favorecida pelo governo de Jair Bolsonaro e pelos funcionários que ele posicionou em postos estratégicos justamente para facilitar a vida de criminosos na Amazônia.

O Brasil parece ter entendido agora, depois da visita do presidente Lula à Roraima no último dia 21 de janeiro, o que Bruno Pereira, Dom Phillips e tantos outros denunciaram incansavelmente desde 2019: o incentivo governamental explícito à invasão de terras indígenas, a paralisação das demarcações de terras, o apoio à grilagem e ao garimpo ilegal causam não só devastação ambiental como assassinatos e genocídio indígena. Lembramos que, tanto na Terra Indígena Yanomami quanto na Terra Indígena Vale do Javari, por serem áreas de fronteira, existe forte presença militar, com pelotões de fronteira e batalhões de infantaria de selva que de nada serviram para proteger os indígenas ou os servidores públicos. Enquanto todas as responsabilidades não forem apuradas e as atividades criminosas cessadas no Javari, as vidas dos povos indígenas, dos servidores públicos e até das testemunhas de todos esses crimes permanecem sob ameaça.

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